A DESCENTRALIZAÇÃO DA ESCRITURA: O uso do pragmatismo no meio evangélico brasileiro em detrimento da Autoridade e Suficiência da Escritura

Por: Thiago Pereira. [1]

Escritura

Vemos em nossos dias quase que por completo o abandono por parte de muitas igrejas quanto à autoridade máxima da Escritura, e ver este quadro é muito triste, pois, percebemos como a Palavra de Deus perdeu a centralidade para aqueles que se dizem cristãos, mas hoje se encontram abraçando o pragmatismo. Hoje, há muitas igrejas que promovem festas e baladas para entreter os presentes. Isso não tem respaldo bíblico! Muitos, querendo defender seus métodos pragmáticos, dizem: “isso é uma forma de atrair os pecadores”, também acabam por fazer um mau uso da passagem de Paulo em 1Co 9.22 para tentar embasar o seu argumento! O pragmatismo religioso é o câncer eclesiástico que vem assolando a Igreja, desde os tempos antigos até os dias atuais.

O pragmatismo é um dos piores males que tem assolado não só as igrejas no Brasil, mas no mundo inteiro. A ideia do pragmatismo, é utilizar como método “aquilo que funciona”, independente se o método é certo ou errado, o que importa é o resultado em si! Um pragmático, nunca se perguntará: É certo usar isto, ou aquilo outro para pregar o evangelho? Antes, sua pergunta será: Dá certo utilizar este meio para alcançar mais pessoas para a igreja?

A ideia do pragmatismo, é utilizar como método “aquilo que funciona”, independente se o método é certo ou errado, o que importa é o resultado em si!

Hoje, muitos não conseguem enxergar mais a autoridade suprema da Palavra de Deus em suas vidas, por isso vão atrás da psicologia de autoajuda, cultos de “descarrego”, “libertação espiritual”, onde na verdade se mostra mais um show ou um teatro, do que uma situação real, tamanha é a “realidade” encontrada nestas ditas “manifestações demoníacas”. Quando se trata da manifestação de Deus, da ação do Espírito Santo, o quadro muda. Talvez, muitos compareçam a estas reuniões por não crerem mais que a Escritura é suficiente para libertar pessoas aprisionadas por algum tipo de vício ou algo parecido. Sem contar o fato do “determinismo”, do tipo: “Eu declaro”, “eu decreto a vitória”, “eu rejeito a dor, a doença”, “eu quebro a maldição x, y, z, etc”. Assim, atraindo pessoas para as suas reuniões, sejam jovens ou adultos, o propósito deles é encher igrejas a qualquer custo – Ele (o pragmático) conseguirá o seu objetivo: uma igreja cheia, aparentemente avivada, no entanto, ela se encontra morta, pois, não habita nestas pessoas a verdade do Evangelho, uma vez que o interesse é satisfazer a vontade do público presente, não observando, acima da vontade humana, a Soberania de Deus, a qual, pode ser a qual um indivíduo deseja, mas, este não deve ser o nosso foco, em hipótese alguma!

Paulo instruiu Timóteo à pregar a Palavra: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta, com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.2-4).

Spurgeon [2] disse certa vez: “Chegará um dia em que no lugar dos pastores alimentando as ovelhas haverá palhaços entretendo os bodes”. – Será que este dia chegou?

Jesus, nem os discípulos, nem Paulo fizeram uso do pragmatismo para chamarem pecadores ao arrependimento! Pelo contrário, todos eles fizeram uso da pregação da Palavra de Deus ao se dirigirem aos pecadores (Mt 9.13; Mc 2.17; Lc 5.32). Vejamos o relato em Atos dos apóstolos: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Agora, veja o relato dos apóstolos, quanto à sua obrigação: “e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4). Veja o versículo 7: “crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; e muitos sacerdotes obedeciam à fé”.

“crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; e muitos sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7).

Mediante estas situações, fico me perguntando: Será que o sangue de Jesus não foi suficiente para nos livrar de toda a culpa, de toda a maldição que havia sobre nós? Sendo que, as Escrituras nos asseguram que o escrito de dívida que era contra nós Jesus o riscou e o encravou na cruz (Cl 2.14), pois Ele, Cristo, ofereceu de uma vez por todas um único sacrífico para sempre pelos pecados, e está à destra de Deus (Hb 10.12), e, segundo a vontade de Deus, temos sidos santificados nele (Hb 10.10). Uma vez que tivemos a remissão de nossos pecados feita por Jesus na cruz, não há mais necessidade de sacrifício, ou seja, “quebra de maldição” (Hb 10.18), pois, o Seu sangue nos purifica de todo o pecado (1Jo 1.7) e já não há mais nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).

Será que o sangue de Jesus não foi suficiente para nos livrar de toda a culpa, de toda a maldição que havia sobre nós?

Tudo isso é fruto dessas teologias norte-americanas, que na verdade vieram para cá a fim de perverterem a fé de muitos, como, por exemplo, o tão conhecido livro de Kenneth E. Hagain, intitulado “O Nome de Jesus”, onde ele defende o ponto de que Jesus nos deu uma “procuração” para usar seu nome e declararmos tudo o que quisermos, e, como se não bastasse, também, o que não quisermos. Jesus nunca fez isso! Ele nunca disse para a Igreja usar seu nome como bem entendesse, antes, ele prometeu aos seus discípulos que estaria com eles no meio das lutas. Os discípulos estavam convictos de que apesar de conquistas e fracassos, Deus era com eles, mesmo que isso redundasse em perda física; a morte. Kenneth E. Hagain e outros que aderiram à esta teologia da chamada “confissão positiva” pregam estas inverdades. Outro autor bem conhecido, era um evangelista, conhecido de muita gente chamado T. L. Osborn. Em seu livro “Curai Enfermos e Expulsai Demônios”, o autor defende que todas as doenças, qualquer uma delas, ou até mesmo toda a sorte de mal, vem do Diabo. Então, para que você não sofra mais você tem que “declarar a sua vitória, expulsando o mal da sua vida”. No entanto, creio que as pessoas que aderem a esta prática se esquecem de dois relatos muito fortes que a Palavra de Deus nos lembra: 1) A brevidade da vida – Encontramos este relato em Tiago 4.14-16. 2) O Diabo não é tolo, ele sabe quem serve a Deus, e quem não serve (Veja Atos 19.13-16). [3]

Jesus NUNCA fez isso! Ele nunca disse para a Igreja usar seu nome como bem entendesse, antes, ele prometeu aos seus discípulos que estaria com eles no meio das lutas.

Heresias como estas têm causado um estrago enorme na Igreja, pois, seus proponentes estão na mídia todos os dias, difundindo inverdades veementemente, achando que estão servindo a Deus, mas, na verdade, estão fazendo um desserviço à Igreja de Deus, enganando a muitos! [4] Eles prometem coisas em nome de Deus, porém, o problema é que o Senhor nunca prometeu estas coisas! Muitos tem entrado por este caminho e tem sido enganados, infelizmente. Tudo isso é fruto da falta da centralidade da Escritura, tanto no púlpito, quanto na vida de cada cristão!

Tudo isso é fruto da falta da centralidade da Escritura, tanto no púlpito, quanto na vida de cada cristão!

A Palavra de Deus para estas pessoas e aqueles que aderem a essas teologias forâneas e espúrias à fé cristã, perdeu o seu valor, perdeu a sua eficácia, devido ao fato de estarem inserindo, aderindo, praticando e difundindo o pragmatismo na Igreja, e ele é fatal! Deixe-me dar um conselho aos pastores, mestres e a todos quanto lerão este texto: o despenseiro deve ser encontrado fiel (1Co 4.2), portanto, pregue a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não (2Tm 4.2). Apenas ela é suficiente para nortear a vida cristã!

Em Romanos, Paulo diz que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Deus (Rm 10.17), versículos atrás, neste mesmo capítulo, ele fala: “e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Ele ainda segue dizendo em 1Co 1.21 “[…] aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação”, a despeito dos judeus pedirem sinais e os gregos sabedoria ele diz: “mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gentios, mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Co 1.23-25).

“e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).

Jesus nos deixou O outro Consolador, O qual não fala de Si mesmo, mas dEle – Cristo – e guia os discípulos a toda a verdade e glorifica Jesus (cf Jo 16.7-14). A Verdade é o que Deus revelou por meio de seus santos servos a nós, e, hoje temos esta Verdade, como uma bússola, aquilo que nos orienta sempre, pois, esta é a vontade de Deus para os seus filhos; para o seu povo!

Lembremo-nos das palavras de Jesus: “porque, pelas tuas palavras, serás justificado, e, pelas tuas palavras, serás condenado” (Mt 12.37). Jesus ainda nos adverte: “Não temeis os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28).

Faço coro com muitos irmãos, que, assim como eu creem que precisamos de uma Nova Reforma, ou seja, precisamos voltar às Escrituras e aprender dela as verdades centrais e inabaláveis da fé, para que não sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro (Ef 4.14).

Seguindo assim, o conselho de Judas à Igreja: “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas, foi entregue aos santos” (Jd 1.3).

Somente com nossas mentes e corações voltados para a Palavra, seremos capazes de experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).

Que Deus nos abençoe, nos dando sabedoria e ousadia para batalharmos diligentemente pela fé que uma vez por todas, foi entregue aos santos.

 

NOTAS

[1] Thiago Pereira tem 26 anos, é natural do Rio de Janeiro, Brasil. Membro da Igreja Batista da Liberdade, em São Paulo. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2016) e aspirante ao curso de Filosofia pela mesma instituição. Cristão Reformado e escritor. Fundador e Idealizador da Página Pensamento Reformado, que conta com a colaboração de seu amigo, Leonardo Bastos.

[2] Charles Haddon Spurgeon, referido como C. H. Spurgeon (Kelvedon, Essex, 19 de junho de 1834Menton, 31 de janeiro de 1892), foi um pregador batista reformado britânicoConverteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de 1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou seu primeiro sermão; no ano seguinte tornou-se pastor de uma igreja batista em Waterbeach, Condado de Cambridgeshire (Inglaterra). Em 1854, Spurgeon, então com vinte anos, foi chamado para ser pastor da capela batista de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, transferindo-se para novo prédio. Desde o início do ministério, seu talento para a exposição dos textos bíblicos foi considerado extraordinário. Sua excelência na pregação das Escrituras Bíblicas lhe renderam o título de O Príncipe dos Pregadores e O Último dos Puritanos.

[3] Vejamos, conforme a Escritura, as consequências das enfermidades (contribuição do meu amigo e irmão Leonardo Bastos):

1) consequência do pecado original (1 Timóteo 5.23);
2) consequência de pecados específicos (Lc 5.23);
3) consequência de uma ação de Deus (Números 12.10, 11; João 11.4);
4) consequência de uma ação de Satanás, com permissão de Deus (Jó 2. 5-7).

[4] Por questões de ética cristã e pastoral, não os citarei aqui, mas, todos nós os conhecemos.

 

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