ABORTAMENTO (2) – QUANDO SE ORIGINA A VIDA?

Abortamento 2

Por: Lourenço Stélio Rega [1]

Desde a edição anterior desta Coluna [2] (Edição21 – 24/05/15)
discutimos neste espaço um tema que vem mobilizando a sociedade brasileira: a prática do abortamento.

Estimativas mais pessimistas dão conta de que, todos os anos, até 4 milhões de
jovens e mulheres praticam a interrupção forçada da gravidez neste país. Se o abortamento se constitui na interrupção da vida, é natural que a primeira questão a se colocar seja: quando, afinal, se inicia a vida? A resposta, necessariamente, deve contemplar abordagens médicas, psicológicas, jurídicas e teológicas.

Temos as teorias genético desenvolvimentistas: (a) teoria da nidação, isto é, a vida se origina quando o ovo (óvulo já fecundado) se implanta na cavidade intrauterina; (b) teoria da organogênese, isto é, ocorre com a formação dos órgãos vitais do novo ser. Antes disso, portanto, não haveria vida – apenas um conjunto de tecidos; (c) teoria da formação dos rudimentos do sistema nervoso e sinais vitais como circulação sanguínea, ondas
cerebrais etc.

Teorias concepcionistas que podem ser compreendidas em dois sentidos como teoria da singamia e teoria da cariogamia: a vida se inicia com a fertilização do óvulo pelo espermatozoide. A contar da fusão das células
germinais (masc/fem) há uma continuidade na manutenção da identidade
genética por toda a vida do indivíduo – zigoto–mórula– blastócito. Essa transformação é auto impulsionada e autogovernada pelo próprio embrião. Da fertilização (espermatozoide + óvulo) até zigoto (concepção), quando
há a identidade genética, há cerca de 12 horas de lapso de tempo entre a fertilização e a concepção. Assim, estas duas teorias focalizam: singamia, a fertilização, e a cariogamia a concepção. Se entendermos que o ser passa
a existir após ter uma identidade, então, aceitaremos a cariogamia.

Ainda há a abordagem psicossocial com a teoria da afetividade, e aqui o início da vida somente ocorre quando o ser é aceito e amado por seus semelhantes. Mas, neste sentido, um questionamento é inevitável: o que seria daquelas pessoas geradas a partir de uma gestação inesperada ou mesmo fruto de um ato adulterino? Neste caso, não seriam considerados
como seres vivos? O que seria também dos não amados?

Já do ponto de vista teológico e filosófico, a alternativa adotada sobre a origem da alma ou vida espiritual determinará se o abortamento é lícito, embora um materialista, por exemplo, não venha a se preocupar com isso.
Assim, em termos gerais, é  possível considerar três alternativas: o pré-existencialismo de Platão, segundo o qual a alma de uma pessoa já existia
desde a criação do mundo, antes mesmo dela nascer; o criacionismo, preconizado por Jerônimo, Pelágio e Calvino, entre tantos outros, para quem a alma é criada por Deus para cada pessoa ex-nihilo, isto é, Deus criaria
uma alma para cada corpo que é gerado; e o traducianismo, defendido por pensadores cristãos como Tertuliano e Lutero, que afirma que a alma é originada por propagação natural. Assim, essa transmissão seria um
processo orgânico, de modo que a alma seria adquirida no momento da concepção, assim como acontece com o código genético. Neste caso, a posição médica acima da cariogamia estaria mais compatível com este modo
de pensar.

Em geral, o abortamento não poderá ser admitido por quem aceita o traducianismo, pois isso seria interromper uma vida já iniciada desde
os primeiros momentos em que o espermatozoide se encontra com o óvulo.
Particularmente, tenho mais facilidade em aceitar o traducianismo/cariogamia, pois, do ponto de vista teológico, é a alternativa que menos dificuldade traz em relação à doutrina da degeneração total
da raça humana. Embora não seja uma alternativa que resolva todos os dilemas teológicos, é a que mais atende às questões teológicas do
cristianismo.

Na próxima edição, iniciaremos o tratamento dos argumentos filoabortistas, isto é, os argumentos favoráveis ao abortamento.

Até lá.

[1] Bacharel em Teologia, mestre em Teologia (especialização em Ética), pós-graduado em Administração de Empresas (núcleo de Análise de Sistemas). Licenciado em Filosofia, mestre em Educação (especialização em História da Educação) e doutor em Ciências da Religião. É diretor e professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião e Administração Eclesiástica da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

[2] Aqui o autor se refere à coluna do jornal Batista, onde esta série de artigos foi publicada.

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