JOÃO 1.1, OS UNICISTAS E OS UNITARISTAS

Logos

Por: Leonardo Bastos

Quem é Jesus Cristo?

Tal pergunta já tirou o sono de muitas pessoas e tem sido alvo de intermináveis debates, não somente na nossa era, mas desde a época dos pais da igreja.

Essa pergunta se torna ainda mais relevante quando contemplamos o mundo em que vivemos, pois ele exige que pensemos correta e profundamente sobre a pessoa de Jesus Cristo. Talvez você pergunte: “mas por quê?”. A resposta é bem simples: a cada esquina há uma igreja, não é verdade? A cada dia novos grupos surgem e dizem possuir a verdade, não é verdade (hehe)?  Se há uma doutrina que é um verdadeiro divisor de águas é a doutrina da pessoa de Jesus Cristo, conhecida como Cristologia.

 Iremos fixar nossos pés no campo da Teologia Bíblica e analisaremos o primeiro versículo do capítulo 1 do Evangelho de João e deixaremos com que a Escritura responda a pergunta supracitada, que abre o nosso texto.

Vamos começar com uma breve explicação histórica sobre os dois grupos citados no título deste artigo.

UNITARISMO: também conhecido como arianismo. Ensina que Jesus é um ser criado, portanto inferior a Deus, O Pai. “O arianismo foi a principal heresia dos primeiros séculos da história da igreja. Ário, um diácono de Alexandria, ensinava que Cristo era apenas uma criatura, não O Deus eterno. Mas, mesmo não acreditando na divindade de Cristo, Ário e seus seguidores usavam a linguagem ortodoxa (…) O resultado dos debates em torno desta doutrina foi a formulação de uma das mais importantes confissões de fé cristã, o Credo de Nicéia, elaborado no primeiro grande concílio da igreja, realizado na cidade de Nicéia, em maio de 325.” [1]

UNICISMO: também conhecido como sabelianismo e modalismo. “Sabélio, presbítero de Ptolemaida, cria na noção de que só existe uma Pessoa divina, Deus Pai, que se manifesta nas três formas, Pai, Filho e Espírito Santo. Deus, então, é uma pessoa que se transformou no processo da história. Tertuliano e Epifânio, bispo de Salamis, refutaram esta posição em fins do século III e começo do século IV. O modalismo, que surgiu com Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, entendia que Deus apresentou-se em três modos, mas não existe eternamente como três pessoas. Intrinsecamente, Deus é somente uma pessoa (…) Esta posição foi rejeitada no Sínodo de Antioquia, ocorrido em 268.” [2]

Agora que conhecemos um pouco melhor os dois grupos, vamos começar a nossa análise de João 1.1. O texto diz:

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.” (João 1.1 – NVI).

No original grego, lemos:

 Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος.” [3]

TRANSLITERANDO O TEXTO:

“EN ARCHÉI EN HO LÓGOS KAI HO LÓGOS EN PRÓS TON THEÓN KAI THEÓS EN HO LÓGOS.”.

No texto acima encontramos duas respostas: uma aos sabelianos / modalistas, ou neo sabelianos – vemos a distinção clara entre Jesus Cristo, O Λόγος (LÓGOS) e Deus, Θεὸς (THEÓS) -; e uma aos unitaristas, ou neo arianos – vemos que Jesus Cristo, O Λόγος (LÓGOS) é eterno, portanto não é uma criatura.

  1. AOS SABELIANOS / MODALISTAS OU NEO SABELIANOS

Jesus Cristo, o λόγοσ (Lógos) e Deus, θεὸσ (Theós) não são a mesma pessoa. Isso fica claro quando analisamos a preposição πρὸς – PRÓS – que aparece no caso dativo. Essa preposição nesta passagem é vertida por COM (… O Logos estava πρὸς – PRÓS [com] Deus). Ela tem os seguintes significados: junto de, perto a – quando aparece no caso dativo, caso da passagem em questão. [4]

E o que isso significa? Significa que o LOGOS tem um relacionamento íntimo, isto é, face a face com O THEÓS, com essa compreensão fica mais clara a passagem de João 1.18 que diz que o “Filho Unigênito estava no seio do Pai (desfrutando de um relacionamento íntimo)”. Então, O LÓGOS estava “junto de”, “próximo ao” THEOS, nesse sentido é que Ele estava com O THEÓS. Mas se O LÓGOS é O THEOS (O PAI), Ele estava com Ele mesmo? O LÓGOS estava perto dEle mesmo? O LÓGOS tinha um relacionamento face a face com Ele mesmo? Isto é inconcebível e beira ao ridículo, não? Todavia, sabemos que Pai e Filho são UM (João 10.30).

Há ainda outra questão a considerar aqui: a questão da omissão do artigo definido!

Se o apóstolo João tivesse a intenção de ensinar, nesse texto, que o λόγοσ (LÓGOS) e O θεὸσ (THEÓS) são a mesma pessoa, o texto que teríamos no original seria este:

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ τὸν Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”

E não este:

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”

Perceba que quando a palavra Θεὸς (THEÓS) é citada pela segunda vez pelo apóstolo João não tem nenhum artigo que a precede (1° vez: τὸν Θεόν [TON THEÓN] – o Deus]; 2° vez: καὶ Θεὸς – KAI THEÓS [e Deus]). E o que isto quer dizer? Quer dizer o seguinte: “o artigo torna definido, identifica certo substantivo, enquanto que a ausência enfatiza mais a essência, qualidade ou natureza do mesmo.” [5]

Por isso, a melhor tradução para o texto de João 1.1 é esta:

“No princípio já existia o Logos, e o Logos estava com Deus, e era divino.” Essa é a melhor tradução a luz da gramática grega.

  1. AOS ARIANOS OU NEO ARIANOS

Vimos acima, na primeira resposta, que Jesus Cristo não é O Pai, mas também é tão divino quanto ele, pois estava com Ele no princípio. Só o fato de termos exposto o significado da preposição πρὸς (PRÓS [com]), nesse contexto, já é o suficiente para provarmos que Jesus Cristo, não é uma criatura por estar πρὸς Deus no princípio.

Mas vamos considerar mais uma questão:

2.1. A QUESTÃO DA PALAVRA GREGA Ἐν – EN [ERA]

A Eternidade do λόγοσ -LOGOS-, é evidenciada aqui, corroborando com a nossa tese de que O λόγοσ não foi criado. O texto diz: “Ἐν ἀρχῇ ἦν – No princípio ERA”  (Ἐν – EN – IMPERFEITO do verbo EIMI [EIMI: Sou]), quando o verbo EIMI aparece no IMPERFEITO (Ἐν – EN) ele indica uma ação contínua no passado, portanto aqui somos levados antes de qualquer início, a saber: ETERNIDADE.

Mas alguém pode perguntar: “uma palavra no grego sempre terá o mesmo significado em todas as ocorrências?”. A resposta é: não!

Vamos dar alguns exemplos: Em João 3.16 é dito que Deus amou o κόσμον (KÓSMON), uma das traduções para essa palavra é mundo, mas não significa que TODAS as vezes que essa palavra é usada seu sentido sera referente a TODAS as pessoas do planeta terra; sabe por quê? Por que no mesmo capítulo, no verso 36 é dito que a ira de Deus permanece sobre alguns, portanto Deus não pode ter amado TODAS as pessoas do mundo e permanecer irado com outras, percebeu a contradição?

Em João 5.19, lemos que o κόσμος (KÓSMOS) jaz no maligno, é claro que esta palavra não pode significar TODAS as pessoas do mundo, pois do contrário até os cristãos estariam no maligno; que absurdo!

Então, o que significa a palavra MUNDO, nas Escrituras?

Vamos ver alguns significados da palavra na Escritura e depois veremos onde ela aparece e qual seu significado, segundo o contexto imediato do texto:

  1. O universo material: “nos escolheu nele antes da fundação do MUNDO” (Ef 1.4);
  1. O mundo como sistema corrompido: “longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o MUNDO está crucificado para mim, e eu para o MUNDO” (Gl 6.14);
  1. A condição humana: “o meu reino não é deste MUNDO (humano)” (Jo 18.36);
  1. O reino de Satanás: “aí vem o príncipe do MUNDO; e ele nada tem em mim” (Jo 14.30);
  1. Os habitantes do mundo.

Pois bem, a luz da abrangência de significados da palavra KÓSMOS (creio que esteja ficando claro o exemplo de que uma palavra NÃO pode ter o mesmo significado em todos os contextos), vejamos, agora, alguns textos onde ela é usada e seu significado, dentro do contexto. A palavra KÓSMOS significa, na Escritura:

  1. MUITOS HOMENS: “ai do MUNDO, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo” (Mt 18.7). Fica claro que KÓSMOS aqui não significa cada ser humano do planeta terra, não é?
  1. O IMPÉRIO ROMANO: naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do Império (todo o MUNDO – tradução literal do texto: ” PASAN TEM OIKUMÉNEN.”) para recensear-se” (Lc 2.1). Aqui também fica claro, não?
  1. OS QUE NÃO SERÃO SALVOS: “eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o MUNDO não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (Jo 14.16, 17; cf. 14.22); “o MUNDO (universo material) foi feito por intermédio dele, mas o MUNDO (os que não o receberam, que era a grande maioria dos que o conheceram na carne) não o conhece…” (Jo 1.10). Creio que não precisa de explicação, certo?
  1. BOA PARTE DA NAÇÃO JUDAICA (uma multidão): “por causa disso também (da ressurreição de Lázaro) a multidão lhe saiu ao encontro, pois ouviram que ele fizera este sinal. De sorte que os fariseus disseram entre si: …eis aí vai o MUNDO após ele” (Jo 12.18, 19). Outro texto que a luz do contexto, bem, está claro…
  1. OS HOMENS EM GERAL: “eu tenho falado francamente ao MUNDO; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto” (Jo 18.20).
  1. DIVERSAS PESSOAS EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO: “pela palavra da verdade do evangelho que chegou até vós; como também em todo o MUNDO está produzindo fruto e crescendo…” (Cl 1.5, 6).
  1. OS GENTIOS EM GERAL: “dirijo-me a vós outros que sois gentios! … para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles. Porque, se o fato de terem sido rejeitados trouxe reconciliação ao mundo…” (Rm 11.13-15; conf. Verso 12).

Portanto, devemos compreender uma palavra a luz de seu contexto, se não fizermos isso cairemos no que é chamado na teologia de FALÁCIA LEXICAL e afirmar que uma palavra sempre tem apenas um significado, independente do contexto em que ela está inserida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para fechar, no Grego vemos claramente a distinção entre O λόγοσ – LÓGOS – e o Θεὸς – THEÓS (O PAI) -, mas vemos que O λόγοσ – LOGOS – é tão divino, quanto Seu Pai; e que eles são UM (Jo 10.30) em divindade.

Abrimos o texto com uma pergunta, não foi? Iremos fechá-lo com a resposta à pergunta:

Jesus Cristo é Deus e é distinto do Pai, todavia eles não são separados ou independentes, isso chama-se politeísmo, antes cremos – com base na Escritura – que Jesus Cristo é:

“o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação (…)”. [6]

REFERÊNCIAS

[1] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, pg. 488.

[2] Ibid.

[3] http://biblehub.com/interlinear/john/1-1.htm (acesso em 09/10/15).

[4] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento, São Paulo: CPAD. MOULTON, Harold. Léxico Grego analítico. São Paulo: Cultura Cristã.

[5] REGA, Lourenço Stelio; BERGMANN, Johannes. Noções do Grego Bíblico. São Paulo: Vida Nova, pg.326.

[6] Credo Niceno. Fonte: http://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm (acesso em 09/10/15).

OBS: Você pode compartilhar o texto, desde que cite o autor.

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