A DESCENTRALIZAÇÃO DA ESCRITURA: O uso do pragmatismo no meio evangélico brasileiro em detrimento da Autoridade e Suficiência da Escritura

Por: Thiago Pereira. [1]

Escritura

Vemos em nossos dias quase que por completo o abandono por parte de muitas igrejas quanto à autoridade máxima da Escritura, e ver este quadro é muito triste, pois, percebemos como a Palavra de Deus perdeu a centralidade para aqueles que se dizem cristãos, mas hoje se encontram abraçando o pragmatismo. Hoje, há muitas igrejas que promovem festas e baladas para entreter os presentes. Isso não tem respaldo bíblico! Muitos, querendo defender seus métodos pragmáticos, dizem: “isso é uma forma de atrair os pecadores”, também acabam por fazer um mau uso da passagem de Paulo em 1Co 9.22 para tentar embasar o seu argumento! O pragmatismo religioso é o câncer eclesiástico que vem assolando a Igreja, desde os tempos antigos até os dias atuais.

O pragmatismo é um dos piores males que tem assolado não só as igrejas no Brasil, mas no mundo inteiro. A ideia do pragmatismo, é utilizar como método “aquilo que funciona”, independente se o método é certo ou errado, o que importa é o resultado em si! Um pragmático, nunca se perguntará: É certo usar isto, ou aquilo outro para pregar o evangelho? Antes, sua pergunta será: Dá certo utilizar este meio para alcançar mais pessoas para a igreja?

A ideia do pragmatismo, é utilizar como método “aquilo que funciona”, independente se o método é certo ou errado, o que importa é o resultado em si!

Hoje, muitos não conseguem enxergar mais a autoridade suprema da Palavra de Deus em suas vidas, por isso vão atrás da psicologia de autoajuda, cultos de “descarrego”, “libertação espiritual”, onde na verdade se mostra mais um show ou um teatro, do que uma situação real, tamanha é a “realidade” encontrada nestas ditas “manifestações demoníacas”. Quando se trata da manifestação de Deus, da ação do Espírito Santo, o quadro muda. Talvez, muitos compareçam a estas reuniões por não crerem mais que a Escritura é suficiente para libertar pessoas aprisionadas por algum tipo de vício ou algo parecido. Sem contar o fato do “determinismo”, do tipo: “Eu declaro”, “eu decreto a vitória”, “eu rejeito a dor, a doença”, “eu quebro a maldição x, y, z, etc”. Assim, atraindo pessoas para as suas reuniões, sejam jovens ou adultos, o propósito deles é encher igrejas a qualquer custo – Ele (o pragmático) conseguirá o seu objetivo: uma igreja cheia, aparentemente avivada, no entanto, ela se encontra morta, pois, não habita nestas pessoas a verdade do Evangelho, uma vez que o interesse é satisfazer a vontade do público presente, não observando, acima da vontade humana, a Soberania de Deus, a qual, pode ser a qual um indivíduo deseja, mas, este não deve ser o nosso foco, em hipótese alguma!

Paulo instruiu Timóteo à pregar a Palavra: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta, com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.2-4).

Spurgeon [2] disse certa vez: “Chegará um dia em que no lugar dos pastores alimentando as ovelhas haverá palhaços entretendo os bodes”. – Será que este dia chegou?

Jesus, nem os discípulos, nem Paulo fizeram uso do pragmatismo para chamarem pecadores ao arrependimento! Pelo contrário, todos eles fizeram uso da pregação da Palavra de Deus ao se dirigirem aos pecadores (Mt 9.13; Mc 2.17; Lc 5.32). Vejamos o relato em Atos dos apóstolos: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Agora, veja o relato dos apóstolos, quanto à sua obrigação: “e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4). Veja o versículo 7: “crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; e muitos sacerdotes obedeciam à fé”.

“crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; e muitos sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7).

Mediante estas situações, fico me perguntando: Será que o sangue de Jesus não foi suficiente para nos livrar de toda a culpa, de toda a maldição que havia sobre nós? Sendo que, as Escrituras nos asseguram que o escrito de dívida que era contra nós Jesus o riscou e o encravou na cruz (Cl 2.14), pois Ele, Cristo, ofereceu de uma vez por todas um único sacrífico para sempre pelos pecados, e está à destra de Deus (Hb 10.12), e, segundo a vontade de Deus, temos sidos santificados nele (Hb 10.10). Uma vez que tivemos a remissão de nossos pecados feita por Jesus na cruz, não há mais necessidade de sacrifício, ou seja, “quebra de maldição” (Hb 10.18), pois, o Seu sangue nos purifica de todo o pecado (1Jo 1.7) e já não há mais nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).

Será que o sangue de Jesus não foi suficiente para nos livrar de toda a culpa, de toda a maldição que havia sobre nós?

Tudo isso é fruto dessas teologias norte-americanas, que na verdade vieram para cá a fim de perverterem a fé de muitos, como, por exemplo, o tão conhecido livro de Kenneth E. Hagain, intitulado “O Nome de Jesus”, onde ele defende o ponto de que Jesus nos deu uma “procuração” para usar seu nome e declararmos tudo o que quisermos, e, como se não bastasse, também, o que não quisermos. Jesus nunca fez isso! Ele nunca disse para a Igreja usar seu nome como bem entendesse, antes, ele prometeu aos seus discípulos que estaria com eles no meio das lutas. Os discípulos estavam convictos de que apesar de conquistas e fracassos, Deus era com eles, mesmo que isso redundasse em perda física; a morte. Kenneth E. Hagain e outros que aderiram à esta teologia da chamada “confissão positiva” pregam estas inverdades. Outro autor bem conhecido, era um evangelista, conhecido de muita gente chamado T. L. Osborn. Em seu livro “Curai Enfermos e Expulsai Demônios”, o autor defende que todas as doenças, qualquer uma delas, ou até mesmo toda a sorte de mal, vem do Diabo. Então, para que você não sofra mais você tem que “declarar a sua vitória, expulsando o mal da sua vida”. No entanto, creio que as pessoas que aderem a esta prática se esquecem de dois relatos muito fortes que a Palavra de Deus nos lembra: 1) A brevidade da vida – Encontramos este relato em Tiago 4.14-16. 2) O Diabo não é tolo, ele sabe quem serve a Deus, e quem não serve (Veja Atos 19.13-16). [3]

Jesus NUNCA fez isso! Ele nunca disse para a Igreja usar seu nome como bem entendesse, antes, ele prometeu aos seus discípulos que estaria com eles no meio das lutas.

Heresias como estas têm causado um estrago enorme na Igreja, pois, seus proponentes estão na mídia todos os dias, difundindo inverdades veementemente, achando que estão servindo a Deus, mas, na verdade, estão fazendo um desserviço à Igreja de Deus, enganando a muitos! [4] Eles prometem coisas em nome de Deus, porém, o problema é que o Senhor nunca prometeu estas coisas! Muitos tem entrado por este caminho e tem sido enganados, infelizmente. Tudo isso é fruto da falta da centralidade da Escritura, tanto no púlpito, quanto na vida de cada cristão!

Tudo isso é fruto da falta da centralidade da Escritura, tanto no púlpito, quanto na vida de cada cristão!

A Palavra de Deus para estas pessoas e aqueles que aderem a essas teologias forâneas e espúrias à fé cristã, perdeu o seu valor, perdeu a sua eficácia, devido ao fato de estarem inserindo, aderindo, praticando e difundindo o pragmatismo na Igreja, e ele é fatal! Deixe-me dar um conselho aos pastores, mestres e a todos quanto lerão este texto: o despenseiro deve ser encontrado fiel (1Co 4.2), portanto, pregue a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não (2Tm 4.2). Apenas ela é suficiente para nortear a vida cristã!

Em Romanos, Paulo diz que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Deus (Rm 10.17), versículos atrás, neste mesmo capítulo, ele fala: “e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Ele ainda segue dizendo em 1Co 1.21 “[…] aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação”, a despeito dos judeus pedirem sinais e os gregos sabedoria ele diz: “mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gentios, mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Co 1.23-25).

“e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).

Jesus nos deixou O outro Consolador, O qual não fala de Si mesmo, mas dEle – Cristo – e guia os discípulos a toda a verdade e glorifica Jesus (cf Jo 16.7-14). A Verdade é o que Deus revelou por meio de seus santos servos a nós, e, hoje temos esta Verdade, como uma bússola, aquilo que nos orienta sempre, pois, esta é a vontade de Deus para os seus filhos; para o seu povo!

Lembremo-nos das palavras de Jesus: “porque, pelas tuas palavras, serás justificado, e, pelas tuas palavras, serás condenado” (Mt 12.37). Jesus ainda nos adverte: “Não temeis os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28).

Faço coro com muitos irmãos, que, assim como eu creem que precisamos de uma Nova Reforma, ou seja, precisamos voltar às Escrituras e aprender dela as verdades centrais e inabaláveis da fé, para que não sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro (Ef 4.14).

Seguindo assim, o conselho de Judas à Igreja: “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas, foi entregue aos santos” (Jd 1.3).

Somente com nossas mentes e corações voltados para a Palavra, seremos capazes de experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).

Que Deus nos abençoe, nos dando sabedoria e ousadia para batalharmos diligentemente pela fé que uma vez por todas, foi entregue aos santos.

 

NOTAS

[1] Thiago Pereira tem 26 anos, é natural do Rio de Janeiro, Brasil. Membro da Igreja Batista da Liberdade, em São Paulo. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2016) e aspirante ao curso de Filosofia pela mesma instituição. Cristão Reformado e escritor. Fundador e Idealizador da Página Pensamento Reformado, que conta com a colaboração de seu amigo, Leonardo Bastos.

[2] Charles Haddon Spurgeon, referido como C. H. Spurgeon (Kelvedon, Essex, 19 de junho de 1834Menton, 31 de janeiro de 1892), foi um pregador batista reformado britânicoConverteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de 1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou seu primeiro sermão; no ano seguinte tornou-se pastor de uma igreja batista em Waterbeach, Condado de Cambridgeshire (Inglaterra). Em 1854, Spurgeon, então com vinte anos, foi chamado para ser pastor da capela batista de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, transferindo-se para novo prédio. Desde o início do ministério, seu talento para a exposição dos textos bíblicos foi considerado extraordinário. Sua excelência na pregação das Escrituras Bíblicas lhe renderam o título de O Príncipe dos Pregadores e O Último dos Puritanos.

[3] Vejamos, conforme a Escritura, as consequências das enfermidades (contribuição do meu amigo e irmão Leonardo Bastos):

1) consequência do pecado original (1 Timóteo 5.23);
2) consequência de pecados específicos (Lc 5.23);
3) consequência de uma ação de Deus (Números 12.10, 11; João 11.4);
4) consequência de uma ação de Satanás, com permissão de Deus (Jó 2. 5-7).

[4] Por questões de ética cristã e pastoral, não os citarei aqui, mas, todos nós os conhecemos.

 

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ABORTAMENTO (3) – O ABORTAMENTO E O DIREITO DA MULHER AO PRÓPRIO CORPO

Abortamento 3

Por: Lourenço Stélio Rega [1].

Nesta edição, começaremos a discutir os argumentos favoráveis ao abortamento, também conhecidos como argumentos “filoabortistas”.
Consideraremos diversos aspectos envolvidos em cada um deles. Ao todo,
trataremos de seis argumentos.

O primeiro e mais divulgado é: “A mulher tem direito ao próprio corpo, e
dele pode se dispor como quiser”.  O pressuposto aqui é que o feto é mera extensão do corpo biológico da gestante, sendo os dois uma só e mesma coisa. Assim como se corta uma unha, descartando células não mais desejáveis, é possível retirar aquele aglomerado de células em fase de
segmentação que está no útero da gestante.

É possível também considerar que a gravidez é indesejável, seja por causa
dos transtornos que ela possa causar na vida da gestante, também por causa de uma gravidez considerada ilícita ou mesmo por discriminação que possa ocorrer com uma gestante, por exemplo, no emprego. Ou ainda que se proclame que aquela vida em desenvolvimento não será, por diversos motivos, amada por ser indesejada.

Em primeiro lugar, será preciso considerar o lado biológico da situação. A
cromossômica fetal indica que aquele conjunto celular em processo de segmentação no útero da gestante é um ser outro e diferente dela – não sendo, portanto, ela própria. Como ela poderá se dispor de um ser
que não seja ela mesma? Além disso, haverá diferença na frequência cardíaca ou mesmo das ondas cerebrais, quando existirem, em relação a estes fatos se comparados aos da gestante, indicando que aquele
“aglomerado celular” é um outro ser.

Do ponto de vista do Direito, teria uma pessoa o direito de dar fim à própria vida? Teria o direito de dar fim a uma vida alheia? Este aspecto também é corroborado pela teologia bíblica, que indica que ninguém é
dono de si, mas, em primeira e última instância, Deus é o dono do mundo e das criaturas, de acordo com Salmos 24.1.

Além disso, por trás desse argumento está o uso do abortamento como recurso de controle de natalidade. Se a gravidez não é desejada, teria sido melhor evitá-la por meio de recursos que impeçam a fecundação. O feto, que não pediu para nascer, que não tem a opção de escolher o desenvolvimento de sua vida, é a parte mais fraca e silenciosa e que corre
o risco de ser descartada. É uma vida que tem uma linha do tempo pela frente, mas que terá o seu direito a isso violentamente retirado.

Esse argumento trata apenas das consequências de uma paternidade ou maternidade irresponsável, deixando de lado as causas de uma sociedade egoísta, autocentrada, imediatista e inconsequente. A gestação de um novo ser é algo muito importante para ser tratada de modo tão simplista.

 

[1] Bacharel em Teologia, mestre em Teologia (especialização em Ética), pós-graduado em Administração de Empresas (núcleo de Análise de Sistemas). Licenciado em Filosofia, mestre em Educação (especialização em História da Educação) e doutor em Ciências da Religião. É diretor e professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião e Administração Eclesiástica da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

ABORTAMENTO (2) – QUANDO SE ORIGINA A VIDA?

Abortamento 2

Por: Lourenço Stélio Rega [1]

Desde a edição anterior desta Coluna [2] (Edição21 – 24/05/15)
discutimos neste espaço um tema que vem mobilizando a sociedade brasileira: a prática do abortamento.

Estimativas mais pessimistas dão conta de que, todos os anos, até 4 milhões de
jovens e mulheres praticam a interrupção forçada da gravidez neste país. Se o abortamento se constitui na interrupção da vida, é natural que a primeira questão a se colocar seja: quando, afinal, se inicia a vida? A resposta, necessariamente, deve contemplar abordagens médicas, psicológicas, jurídicas e teológicas.

Temos as teorias genético desenvolvimentistas: (a) teoria da nidação, isto é, a vida se origina quando o ovo (óvulo já fecundado) se implanta na cavidade intrauterina; (b) teoria da organogênese, isto é, ocorre com a formação dos órgãos vitais do novo ser. Antes disso, portanto, não haveria vida – apenas um conjunto de tecidos; (c) teoria da formação dos rudimentos do sistema nervoso e sinais vitais como circulação sanguínea, ondas
cerebrais etc.

Teorias concepcionistas que podem ser compreendidas em dois sentidos como teoria da singamia e teoria da cariogamia: a vida se inicia com a fertilização do óvulo pelo espermatozoide. A contar da fusão das células
germinais (masc/fem) há uma continuidade na manutenção da identidade
genética por toda a vida do indivíduo – zigoto–mórula– blastócito. Essa transformação é auto impulsionada e autogovernada pelo próprio embrião. Da fertilização (espermatozoide + óvulo) até zigoto (concepção), quando
há a identidade genética, há cerca de 12 horas de lapso de tempo entre a fertilização e a concepção. Assim, estas duas teorias focalizam: singamia, a fertilização, e a cariogamia a concepção. Se entendermos que o ser passa
a existir após ter uma identidade, então, aceitaremos a cariogamia.

Ainda há a abordagem psicossocial com a teoria da afetividade, e aqui o início da vida somente ocorre quando o ser é aceito e amado por seus semelhantes. Mas, neste sentido, um questionamento é inevitável: o que seria daquelas pessoas geradas a partir de uma gestação inesperada ou mesmo fruto de um ato adulterino? Neste caso, não seriam considerados
como seres vivos? O que seria também dos não amados?

Já do ponto de vista teológico e filosófico, a alternativa adotada sobre a origem da alma ou vida espiritual determinará se o abortamento é lícito, embora um materialista, por exemplo, não venha a se preocupar com isso.
Assim, em termos gerais, é  possível considerar três alternativas: o pré-existencialismo de Platão, segundo o qual a alma de uma pessoa já existia
desde a criação do mundo, antes mesmo dela nascer; o criacionismo, preconizado por Jerônimo, Pelágio e Calvino, entre tantos outros, para quem a alma é criada por Deus para cada pessoa ex-nihilo, isto é, Deus criaria
uma alma para cada corpo que é gerado; e o traducianismo, defendido por pensadores cristãos como Tertuliano e Lutero, que afirma que a alma é originada por propagação natural. Assim, essa transmissão seria um
processo orgânico, de modo que a alma seria adquirida no momento da concepção, assim como acontece com o código genético. Neste caso, a posição médica acima da cariogamia estaria mais compatível com este modo
de pensar.

Em geral, o abortamento não poderá ser admitido por quem aceita o traducianismo, pois isso seria interromper uma vida já iniciada desde
os primeiros momentos em que o espermatozoide se encontra com o óvulo.
Particularmente, tenho mais facilidade em aceitar o traducianismo/cariogamia, pois, do ponto de vista teológico, é a alternativa que menos dificuldade traz em relação à doutrina da degeneração total
da raça humana. Embora não seja uma alternativa que resolva todos os dilemas teológicos, é a que mais atende às questões teológicas do
cristianismo.

Na próxima edição, iniciaremos o tratamento dos argumentos filoabortistas, isto é, os argumentos favoráveis ao abortamento.

Até lá.

[1] Bacharel em Teologia, mestre em Teologia (especialização em Ética), pós-graduado em Administração de Empresas (núcleo de Análise de Sistemas). Licenciado em Filosofia, mestre em Educação (especialização em História da Educação) e doutor em Ciências da Religião. É diretor e professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião e Administração Eclesiástica da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

[2] Aqui o autor se refere à coluna do jornal Batista, onde esta série de artigos foi publicada.

ABORTAMENTO (1) – O QUE DIZ A IGREJA?

Abortamento 1

Por: Lourenço Stélio Rega [1].

Ostensivamente abordado pelos meios massivos de comunicação, o tema sobre o abortamento nem sempre tem recebido o devido tratamento prioritário na agenda de discussão evangélica no Brasil. Aliás, não apenas este, mas outros assuntos relacionados ao campo da ética têm passado ao largo das discussões entre os protestantes brasileiros. Parece que a concepção salvacionista que tem se tornado um dos centros gestores das nossas práticas e doutrinas, levando-nos a priorizar a salvação da alma e os passeios futuros pelas ruas de ouro da Nova Jerusalém, tem gerado um Evangelho distante da vida cotidiana. Uma fé quase estratosférica, que acaba nem sempre priorizando o que se passa à sua volta no mundo dos mortais. O abortamento, como se diz na linguagem médica (pois “aborto” é o concepto rejeitado), tem sido um importante tema nos atuais debates na mídia brasileira. E a discussão segue o colorido diversificado de convicções libertárias de movimentos
antropocêntricos, mas também convicções religiosas, morais e políticas. Para o governo, o abortamento tem sido definido como assunto de Estado e questão de saúde pública. Pudera – no Brasil, a interrupção da gravidez, geralmente praticada em clínicas clandestinas, já chegou a constituir a quinta maior causa de internações na rede pública de saúde. As estatísticas são variadas, circulando entre 1,5 a 4 milhões de abortamentos por ano no país. Em qualquer caso, trata-se de um número absurdo. Na fogueira dos argumentos, alega-se desde a desatualização do Código Penal, que data de 1940 e criminaliza a mulher que pratica o aborto, até a máxima questionável de que a mulher tem direito ao seu próprio corpo, dispondo dele como bem quiser. O atual texto do Código Penal admite duas possibilidades para o abortamento: quando há risco de vida para a gestante ou quando a gravidez for resultante de estupro. Mas tem sido objeto de consideração pela Justiça brasileira, ainda que sem legislação definida no
momento, uma terceira possibilidade – a de se dar cabo da gestação quando se constatar anomalias fetais graves, especialmente no caso de anencefalia e o tema sempre volta a ser discutido nas mesas dos tribunais. Em termos legislativos, já houve a discussão da proposta de descriminalizar o abortamento até a 12ª semana de gravidez e em qualquer idade gestacional quando a houver risco de vida à mãe ou em caso de má formação fetal incompatível com a vida, inclusive a discussão sobre a revogação dos artigos que criminalizam o abortamento no Código Penal, de modo que seja assegurado que o Sistema Único de Saúde (SUS) realize legalmente a interrupção da gravidez. Atualmente (maio/2015) no Senado há em discussão um projeto de lei criminalizando o abortamento em caso de feto anencefálico (PLS 187/2012), mas outros dois projetos descriminalizando o mesmo caso (PLS 50/2011 e PLS 183/2004), outro projeto descriminaliza o abortamento se for atestada a ausência de vida no gestado (PLS 312/2004).
Na Câmara dos Deputados seguem em discussão diversos projetos de lei sobre o assunto. O PL 6115/2013 que acrescenta parágrafo único ao Art. 128 do Código Penal quando trata da possibilidade de abortamento no caso da gravidez ser resultante de estupro, com o seguinte teor: “Só se aplica se o estupro for comprovado mediante exame do corpo de delito, não bastando a simples alegação da gestante”. Há também o PL 5069/2013 que trata de criminalizar anúncio de meio abortivo ou induzimento ao aborto. O 1545/2011 que tipifica o crime de abortamento praticado por médico quando não for os tipos admitidos no Código Penal. Um interessante Projeto de Lei (PL 489/2007, apensado ao PL 487/2007) dispõe sobre o que seja um nascituro em seu Art. 3º com os seguintes termos: “O nascituro adquire personalidade jurídica ao nascer com vida, mas sua natureza humana é reconhecida desde a concepção, conferindo-lhe proteção jurídica por meio deste estatuto e da lei civil e penal. Parágrafo único – O nascituro goza do direito à vida, à integridade física, à honra, à imagem e de todos os demais direitos de personalidade”. O PL 7443/2006 dispõe sobre a inclusão do tipo penal de abortamento como modalidade de crime hediondo. O PL 4403/2004 acrescenta inciso ao art. 128 do Código Penal, isentando de pena a prática de “abortamento terapêutico” em caso de anomalia do feto, incluindo o feto anencéfalo, que implique em impossibilidade de vida extrauterina. Há outros projetos de Lei em discussão, mas sem referência direta ao acréscimo de outros motivos legais ao abortamento. Um dos pontos necessários para a ampla e profunda discussão do tema é aceitar que ele tem diversas facetas, e não apenas uma só. Portanto, é um assunto que possui implicações sociais, médicas, psicológicas, jurídicas, econômicas, políticas, éticas, filosóficas e até teológicas. Somente assim – contemplando todas as suas facetas – será possível um estudo sério sobre o assunto. Esta será nossa proposta para este espaço ao longo das próximas edições desta Coluna.

[1] Bacharel em Teologia, mestre em Teologia (especialização em Ética), pós-graduado em Administração de Empresas (núcleo de Análise de Sistemas). Licenciado em Filosofia, mestre em Educação (especialização em História da Educação) e doutor em Ciências da Religião. É diretor e professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião e Administração Eclesiástica da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

Deus Não Quer!

 Em 2 Pedro 3:9 o apóstolo diz algo no sentido de que Deus “não quer que ninguém pereça”. Este é o verso favorito de muitas pessoas, e um hino ou uma canção sacra já foi escrito com base nessas palavras.

 O motivo pelo qual as pessoas gostam desse verso é que ele mostra a misericórdia de Deus; e sem a misericórdia de Deus todos nós estamos perdidos. Mas se esse verso ensina uma preciosa verdade, ele dever ser citado corretamente e por completo. Quando o diabo tentou Cristo, ele citou o Salmo 91, mas ele torceu o seu sentido, omitindo parte de uma frase e aplicando erroneamente o restante dele.

 Semelhantemente, muitas pessoas que citam 2 Pedro 3:9 omitem a principal parte do verso e aplicam erroneamente o restante dele. Estes citam o verso como se ele dissesse: “Deus não quer que ninguém pereça”. Então, uma vez que o Salmo 135:6 diz que “o Senhor faz tudo o que lhe agrada”, e em Isaías 46:10 Deus diz “eu farei tudo o que me agrada”, portanto ninguém está perdido e todas as pessoas são salvas. Deus não quer que ninguém pereça; Ele faz tudo o que lhe agrada; portanto Ele salva todas as pessoas.

 No entanto, a Bíblia deixa claro que nem todo mundo é salvo. A Bíblia também deixa claro que Deus é onipotente e que Ele faz tudo o que lhe agrada. Por isso, deve haver algum erro de interpretação envolvido na omissão da principal parte deste verso de Pedro.

 Seria melhor ler atentamente todo o capítulo sem omitir nada. Pedro está respondendo uma objeção à segunda vinda de Cristo. Os descrentes argumentam: Todas as coisas têm acontecido normalmente desde o início da criação; elas vão continuar seu curso natural; e nenhuma intervenção catastrófica ocorrerá para culminar a história.

 Pedro responde que as coisas nem sempre seguiram o seu curso natural. Em uma ocasião Deus inundou o mundo e destruiu os ímpios. Portanto, a interpretação naturalista da história é errônea.

 Essa resposta levanta outra pergunta. Por que Deus não envia Cristo imediatamente e destrói os ímpios? Essa pergunta pode ter sido feita por cristãos que estavam sofrendo perseguição. De qualquer forma, Pedro definitivamente se dirige aos cristãos e diz: O Senhor “é paciente para com vocês (a.v.: para conosco), não querendo que ninguém (de vocês, ou, de nós) pereça”.

 A palavra ninguém nessa passagem não se refere a ninguém em geral, mas a ninguém dos cristãos. A partir de outros textos na Bíblia, nós podemos dizer que Pedro ensina que o mundo continuará, e Cristo não retornará, até que todos aqueles que o Pai deu ao Filho na eternidade tenham vindo a Ele no tempo. Se o mundo acabar muito em breve, alguém escolhido no Amado antes da fundação do mundo perecerá. Deus não permitirá essa calamidade, pois Ele não quer que ninguém dos eleitos pereça.

 Portanto, louvemos a imerecida misericórdia de Deus, que tarda o culminar catastrófico da história a fim de que o último dos eleitos seja salvo.

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Autor: Gordon Clark.

Tradutor: Thiago McHertt.

Texto Original: Gordon Clark Foundation.

Fonte: http://www.firelandmissions.com/#!Deus-Não-Quer/c12xy/55353d690cf2adc1acd5006a

Extinção do cristianismo no Iraque poderá acontecer em cinco anos, apontam missionários

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A situação de perseguição religiosa no Iraque é tão intensa que a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) estima que, em até cinco anos, as tradições cristãs no país serão extintas caso não haja uma “ajuda de emergência a nível internacional”.

O quadro dramático é apontado no relatório “Perseguidos e Esquecidos?”, que expõe detalhadamente a situação dos “cristãos oprimidos por causa da sua fé”.

Com dados relativos ao período de outubro de 2013 e julho de 2015, quando a pesquisa foi realizada, o relatório aponta que no Iraque, os cristãos foram reduzidos “de cerca de um milhão em 2002-2003 para cerca de 700 mil em 2006 e para menos de 300 mil” atualmente.

“A população cristã tem vindo a sofrer uma verdadeira hemorragia no Iraque, a um ritmo de 60 a 100 mil por ano”, alerta o estudo, que ressalta que “estas estatísticas sugerem que, a não ser que haja uma mudança para melhor, o cristianismo será totalmente extinto no Iraque no prazo de cinco anos”.

De acordo com informações do Diário Digital, a AIS é uma organização missionária da Igreja Católica subordinada diretamente ao Vaticano, que trabalha com o propósito de “ajudar os cristãos onde quer que eles se encontrem perseguidos, refugiados ou em necessidade”.

“A ameaça mais grave”, aponta o relatório, tem sido o extremismo islâmico em todo o mundo: “A ascensão de grupos militantes islâmicos na Nigéria, no Sudão, no Quênia, na Tanzânia e em outras regiões da África está a desestabilizar a presença cristã no único continente que até agora constituiu a maior esperança da Igreja para o futuro”, resume.

Fonte: http://noticias.gospelmais.com.br/extincao-cristianismo-iraque-5-anos-79699.html

JOÃO 1.1, OS UNICISTAS E OS UNITARISTAS

Logos

Por: Leonardo Bastos

Quem é Jesus Cristo?

Tal pergunta já tirou o sono de muitas pessoas e tem sido alvo de intermináveis debates, não somente na nossa era, mas desde a época dos pais da igreja.

Essa pergunta se torna ainda mais relevante quando contemplamos o mundo em que vivemos, pois ele exige que pensemos correta e profundamente sobre a pessoa de Jesus Cristo. Talvez você pergunte: “mas por quê?”. A resposta é bem simples: a cada esquina há uma igreja, não é verdade? A cada dia novos grupos surgem e dizem possuir a verdade, não é verdade (hehe)?  Se há uma doutrina que é um verdadeiro divisor de águas é a doutrina da pessoa de Jesus Cristo, conhecida como Cristologia.

 Iremos fixar nossos pés no campo da Teologia Bíblica e analisaremos o primeiro versículo do capítulo 1 do Evangelho de João e deixaremos com que a Escritura responda a pergunta supracitada, que abre o nosso texto.

Vamos começar com uma breve explicação histórica sobre os dois grupos citados no título deste artigo.

UNITARISMO: também conhecido como arianismo. Ensina que Jesus é um ser criado, portanto inferior a Deus, O Pai. “O arianismo foi a principal heresia dos primeiros séculos da história da igreja. Ário, um diácono de Alexandria, ensinava que Cristo era apenas uma criatura, não O Deus eterno. Mas, mesmo não acreditando na divindade de Cristo, Ário e seus seguidores usavam a linguagem ortodoxa (…) O resultado dos debates em torno desta doutrina foi a formulação de uma das mais importantes confissões de fé cristã, o Credo de Nicéia, elaborado no primeiro grande concílio da igreja, realizado na cidade de Nicéia, em maio de 325.” [1]

UNICISMO: também conhecido como sabelianismo e modalismo. “Sabélio, presbítero de Ptolemaida, cria na noção de que só existe uma Pessoa divina, Deus Pai, que se manifesta nas três formas, Pai, Filho e Espírito Santo. Deus, então, é uma pessoa que se transformou no processo da história. Tertuliano e Epifânio, bispo de Salamis, refutaram esta posição em fins do século III e começo do século IV. O modalismo, que surgiu com Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, entendia que Deus apresentou-se em três modos, mas não existe eternamente como três pessoas. Intrinsecamente, Deus é somente uma pessoa (…) Esta posição foi rejeitada no Sínodo de Antioquia, ocorrido em 268.” [2]

Agora que conhecemos um pouco melhor os dois grupos, vamos começar a nossa análise de João 1.1. O texto diz:

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.” (João 1.1 – NVI).

No original grego, lemos:

 Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος.” [3]

TRANSLITERANDO O TEXTO:

“EN ARCHÉI EN HO LÓGOS KAI HO LÓGOS EN PRÓS TON THEÓN KAI THEÓS EN HO LÓGOS.”.

No texto acima encontramos duas respostas: uma aos sabelianos / modalistas, ou neo sabelianos – vemos a distinção clara entre Jesus Cristo, O Λόγος (LÓGOS) e Deus, Θεὸς (THEÓS) -; e uma aos unitaristas, ou neo arianos – vemos que Jesus Cristo, O Λόγος (LÓGOS) é eterno, portanto não é uma criatura.

  1. AOS SABELIANOS / MODALISTAS OU NEO SABELIANOS

Jesus Cristo, o λόγοσ (Lógos) e Deus, θεὸσ (Theós) não são a mesma pessoa. Isso fica claro quando analisamos a preposição πρὸς – PRÓS – que aparece no caso dativo. Essa preposição nesta passagem é vertida por COM (… O Logos estava πρὸς – PRÓS [com] Deus). Ela tem os seguintes significados: junto de, perto a – quando aparece no caso dativo, caso da passagem em questão. [4]

E o que isso significa? Significa que o LOGOS tem um relacionamento íntimo, isto é, face a face com O THEÓS, com essa compreensão fica mais clara a passagem de João 1.18 que diz que o “Filho Unigênito estava no seio do Pai (desfrutando de um relacionamento íntimo)”. Então, O LÓGOS estava “junto de”, “próximo ao” THEOS, nesse sentido é que Ele estava com O THEÓS. Mas se O LÓGOS é O THEOS (O PAI), Ele estava com Ele mesmo? O LÓGOS estava perto dEle mesmo? O LÓGOS tinha um relacionamento face a face com Ele mesmo? Isto é inconcebível e beira ao ridículo, não? Todavia, sabemos que Pai e Filho são UM (João 10.30).

Há ainda outra questão a considerar aqui: a questão da omissão do artigo definido!

Se o apóstolo João tivesse a intenção de ensinar, nesse texto, que o λόγοσ (LÓGOS) e O θεὸσ (THEÓS) são a mesma pessoa, o texto que teríamos no original seria este:

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ τὸν Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”

E não este:

Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”

Perceba que quando a palavra Θεὸς (THEÓS) é citada pela segunda vez pelo apóstolo João não tem nenhum artigo que a precede (1° vez: τὸν Θεόν [TON THEÓN] – o Deus]; 2° vez: καὶ Θεὸς – KAI THEÓS [e Deus]). E o que isto quer dizer? Quer dizer o seguinte: “o artigo torna definido, identifica certo substantivo, enquanto que a ausência enfatiza mais a essência, qualidade ou natureza do mesmo.” [5]

Por isso, a melhor tradução para o texto de João 1.1 é esta:

“No princípio já existia o Logos, e o Logos estava com Deus, e era divino.” Essa é a melhor tradução a luz da gramática grega.

  1. AOS ARIANOS OU NEO ARIANOS

Vimos acima, na primeira resposta, que Jesus Cristo não é O Pai, mas também é tão divino quanto ele, pois estava com Ele no princípio. Só o fato de termos exposto o significado da preposição πρὸς (PRÓS [com]), nesse contexto, já é o suficiente para provarmos que Jesus Cristo, não é uma criatura por estar πρὸς Deus no princípio.

Mas vamos considerar mais uma questão:

2.1. A QUESTÃO DA PALAVRA GREGA Ἐν – EN [ERA]

A Eternidade do λόγοσ -LOGOS-, é evidenciada aqui, corroborando com a nossa tese de que O λόγοσ não foi criado. O texto diz: “Ἐν ἀρχῇ ἦν – No princípio ERA”  (Ἐν – EN – IMPERFEITO do verbo EIMI [EIMI: Sou]), quando o verbo EIMI aparece no IMPERFEITO (Ἐν – EN) ele indica uma ação contínua no passado, portanto aqui somos levados antes de qualquer início, a saber: ETERNIDADE.

Mas alguém pode perguntar: “uma palavra no grego sempre terá o mesmo significado em todas as ocorrências?”. A resposta é: não!

Vamos dar alguns exemplos: Em João 3.16 é dito que Deus amou o κόσμον (KÓSMON), uma das traduções para essa palavra é mundo, mas não significa que TODAS as vezes que essa palavra é usada seu sentido sera referente a TODAS as pessoas do planeta terra; sabe por quê? Por que no mesmo capítulo, no verso 36 é dito que a ira de Deus permanece sobre alguns, portanto Deus não pode ter amado TODAS as pessoas do mundo e permanecer irado com outras, percebeu a contradição?

Em João 5.19, lemos que o κόσμος (KÓSMOS) jaz no maligno, é claro que esta palavra não pode significar TODAS as pessoas do mundo, pois do contrário até os cristãos estariam no maligno; que absurdo!

Então, o que significa a palavra MUNDO, nas Escrituras?

Vamos ver alguns significados da palavra na Escritura e depois veremos onde ela aparece e qual seu significado, segundo o contexto imediato do texto:

  1. O universo material: “nos escolheu nele antes da fundação do MUNDO” (Ef 1.4);
  1. O mundo como sistema corrompido: “longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o MUNDO está crucificado para mim, e eu para o MUNDO” (Gl 6.14);
  1. A condição humana: “o meu reino não é deste MUNDO (humano)” (Jo 18.36);
  1. O reino de Satanás: “aí vem o príncipe do MUNDO; e ele nada tem em mim” (Jo 14.30);
  1. Os habitantes do mundo.

Pois bem, a luz da abrangência de significados da palavra KÓSMOS (creio que esteja ficando claro o exemplo de que uma palavra NÃO pode ter o mesmo significado em todos os contextos), vejamos, agora, alguns textos onde ela é usada e seu significado, dentro do contexto. A palavra KÓSMOS significa, na Escritura:

  1. MUITOS HOMENS: “ai do MUNDO, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo” (Mt 18.7). Fica claro que KÓSMOS aqui não significa cada ser humano do planeta terra, não é?
  1. O IMPÉRIO ROMANO: naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do Império (todo o MUNDO – tradução literal do texto: ” PASAN TEM OIKUMÉNEN.”) para recensear-se” (Lc 2.1). Aqui também fica claro, não?
  1. OS QUE NÃO SERÃO SALVOS: “eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o MUNDO não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (Jo 14.16, 17; cf. 14.22); “o MUNDO (universo material) foi feito por intermédio dele, mas o MUNDO (os que não o receberam, que era a grande maioria dos que o conheceram na carne) não o conhece…” (Jo 1.10). Creio que não precisa de explicação, certo?
  1. BOA PARTE DA NAÇÃO JUDAICA (uma multidão): “por causa disso também (da ressurreição de Lázaro) a multidão lhe saiu ao encontro, pois ouviram que ele fizera este sinal. De sorte que os fariseus disseram entre si: …eis aí vai o MUNDO após ele” (Jo 12.18, 19). Outro texto que a luz do contexto, bem, está claro…
  1. OS HOMENS EM GERAL: “eu tenho falado francamente ao MUNDO; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto” (Jo 18.20).
  1. DIVERSAS PESSOAS EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO: “pela palavra da verdade do evangelho que chegou até vós; como também em todo o MUNDO está produzindo fruto e crescendo…” (Cl 1.5, 6).
  1. OS GENTIOS EM GERAL: “dirijo-me a vós outros que sois gentios! … para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles. Porque, se o fato de terem sido rejeitados trouxe reconciliação ao mundo…” (Rm 11.13-15; conf. Verso 12).

Portanto, devemos compreender uma palavra a luz de seu contexto, se não fizermos isso cairemos no que é chamado na teologia de FALÁCIA LEXICAL e afirmar que uma palavra sempre tem apenas um significado, independente do contexto em que ela está inserida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para fechar, no Grego vemos claramente a distinção entre O λόγοσ – LÓGOS – e o Θεὸς – THEÓS (O PAI) -, mas vemos que O λόγοσ – LOGOS – é tão divino, quanto Seu Pai; e que eles são UM (Jo 10.30) em divindade.

Abrimos o texto com uma pergunta, não foi? Iremos fechá-lo com a resposta à pergunta:

Jesus Cristo é Deus e é distinto do Pai, todavia eles não são separados ou independentes, isso chama-se politeísmo, antes cremos – com base na Escritura – que Jesus Cristo é:

“o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação (…)”. [6]

REFERÊNCIAS

[1] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, pg. 488.

[2] Ibid.

[3] http://biblehub.com/interlinear/john/1-1.htm (acesso em 09/10/15).

[4] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento, São Paulo: CPAD. MOULTON, Harold. Léxico Grego analítico. São Paulo: Cultura Cristã.

[5] REGA, Lourenço Stelio; BERGMANN, Johannes. Noções do Grego Bíblico. São Paulo: Vida Nova, pg.326.

[6] Credo Niceno. Fonte: http://www.monergismo.com/textos/credos/credoniceno.htm (acesso em 09/10/15).

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